Muhammad Ali tinha plano de vender carro brasileiro pelo mundo

Lutador planejava vender anualmente três mil carros de fabricação artesanal

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Em 24 de dezembro de 1986, uma nota no GLOBO dizia que o ex-campeão mundial de boxe Muhammad Ali fundara a empresa Ali Motors e planejava vender, anualmente, três mil carros de fabricação artesanal. O plano era exportá-los, principalmente para países muçulmanos. Seria mais uma atividade em seu leque de investimentos, que incluía negócios imobiliários, petrolíferos e de hotelaria.

Com chassi do Pontiac Fiero e acabamento de luxo, os automóveis se chamariam Ali-3WC, numa referência ao fato de o pugilista ter sido três vezes campeão do mundo (world champion, em inglês). O modelo nunca saiu do papel — mas essa história teve uma reviravolta rocambolesca e veio parar no Brasil…

A primeira página do GLOBO de 26 de abril de 1987 noticiou a chegada de Ali ao Rio. Com 45 anos de idade, afastado dos ringues desde 1981 e já lutando contra o Mal de Parkinson, o atleta estava aqui para acertar um contrato de exportação dos esportivos brasileiros Puma.

Tal ideia surgira em junho de 1986, quando Richard Hirschfeld — controverso advogado de Ali — mostrou ao pugilista um Puma que fora comprado por seu filho.

A essa altura, a fábrica original da Puma (em São Paulo) já não existia e os direitos de produção pertenciam à Araucária Indústria de Veículos, do Paraná. Ali apaixonou-se pelo esportivo e procurou a empresa. O objetivo do atleta era vender os carros no Oriente Médio e na Europa.

“Bem que os assessores se esforçam para que todos tenham a impressão de que ainda é Muhammad Ali quem decide as coisas. Mas, provavelmente, já não é mais assim”, vislumbrou o repórter, diante da decadência física do campeão.

Rubens Maluf Dabul, dono da Araucária, afirmou numa entrevista que o contrato com o lutador previa a exportação de 500 Puma já no primeiro ano.

Os automóveis encomendados deveriam ter várias características especiais. O motor seria fornecido pela Porsche, e não pela Volkswagen. A carroceria era mais larga que a do Puma P-018 que lhe dera origem. Além disso, tinha faróis retangulares (em vez de redondos) e painel forrado com madeira. Para conferir o produto de perto, o atleta e seu advogado viajaram ao Paraná.

“O único perigo é o campeão não concordar com algum detalhe do novo automóvel, que tem mais de 200 modificações em relação ao modelo que é vendido aqui. Ao que parece, isto não deverá acontecer: a entourage de Muhammad Ali está a postos e bem alerta”, concluiu o repórter.

O atleta passeou por Curitiba, distribuiu autógrafos e passou um dia na linha de produção, conversando com operários e até fazendo truques de mágica, algo que tinha como hobby.

No texto de 26 de abril, O GLOBO disse que o carro se chamaria Ali Stinger, referência à frase “Float like a butterfly, sting like a bee…” (“Flutuar como uma borboleta, ferroar como uma abelha…”), como ele se descrevia nos ringues. A reportagem afirmava que já havia quatro protótipos sendo montados.

Em 29 de abril, porém, uma nota no jornal dizia que o carro (cujo lançamento estava previsto para dali a 60 dias) levaria o nome de Puma Al-Fassi. Era uma homenagem a Muhammad al-Fassi, exótico príncipe saudita que bancaria parte da operação. Falava-se em um investimento inicial de US$ 36 milhões e na encomenda 1.440 automóveis. O modelo foi apelidado de “Alface” pelos operários da Araucária…

Além de visitar Curitiba, o pugilista foi a Porto Alegre conhecer os carros da Besson, Gobbi S.A, fabricante dos esportivos Miura. Conta-se que ele gostou do que viu e afirmou que encomendaria 240 exemplares.

Os pedidos, contudo, foram subitamente cancelados por problemas da família Al-Fassi com o governo saudita. Todo esse delírio não foi além de dois protótipos do “Alface” concluídos (um terceiro foi montado em 2009, a partir de uma carroceria que sobrara e de um motor Volkswagen 1600 “a ar”). A encomenda não concretizada deu grande prejuízo à Araucária, que acabou repassando a marca Puma a outra empresa, a Alfa Metais Veículos.

A história também não acabou bem para Hirschfeld, o mentor do projeto. O persuasivo advogado meteu-se com traficantes de armas, foi processado por evasão de rendas, acusado de ser espião, fraudou a reconstrução de casas afetadas por um furacão e tentou jogar ácido no rosto de um juiz que o condenara. Chegou a fugir para as Ilhas Canárias. Recapturado, e suicidou-se numa prisão da Flórida, em 2005.

A essa altura, Muhammad Ali já não era mais seu amigo: em 1999, o boxeador entrara na Justiça contra o antigo parceiro por uma questão de direitos autorais de uma biografia. O gongo, enfim, soou.

Fonte: PEGN 

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