De terno e gravata, vendedor de doces conquista motoristas em Sorocaba

Claudinei Ramos se sente privilegiado pelo carinho dos motoristas. Além do lucro com as vendas, ele recebe presentes, como camisas

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Foto: G1
Não é comum passar pela praça Quatorze Bis, na Zona Norte de Sorocaba (SP), sem ouvir os motoristas buzinarem e dizerem “boa tarde”. O cumprimento poderia passar despercebido, não fosse o local para onde é direcionado: um triciclo repleto de doces sob os cuidados de Claudinei Batista Ramos, 47 anos, o vendedor que fez do terno e da gravata suas marcas de trabalho e cuja simpatia não permite que ele conclua uma única frase sem antes acenar na direção da Avenida Santos Dumont. “Sou privilegiado, né?”, pergunta, com ar de quem já sabe a resposta.

“Sorocaba tem muita gente boa que acorda cedo e vai atrás de seus sonhos. Eu sou uma delas. O pessoal aqui vê que eu faço o trabalho de coração. Coloco minha melhor roupa e vendo bons produtos. Eles buzinam, acenam, me dão presentes. O carinho é o reconhecimento do meu trabalho”, comemora.

Mas apesar da alegria estampada no rosto, Ramos relembra que vender doces nem sempre esteve em seus planos. Nascido em Jacarezinho, Paraná, ele chegou em Sorocaba com a mãe e os seis irmãos na década de 1980 após perder o pai. Desde então, atuou em diversas áreas, de ajudante geral a coletor de lixo. Até conhecer, quase uma década depois, a mulher, Regina Célia Cardoso, 46 anos, com quem tem quatro filhos. Foi a preocupação com o rendimento familiar após ficar desempregado, em 2008, que mudou o rumo de sua vida.

Ramos diz que se sente privilegiado pelo carinho que recebe dos motoristas (Foto: Amanda Campos/G1)
Ramos diz que se sente privilegiado pelo carinho que recebe dos motoristas (Foto: Amanda Campos/G1)

“Quando comecei a ter filhos, pensava em como complementar a renda. Depois, fiquei desempregado. Não havia mais renda. Saía cedo para entregar currículo e voltava a noite, sem nada. Em um desses dias, entrei em uma igreja, ouvi a palavra de Deus e fui dormir. Nessa noite, sonhei que vendia doces. Entendi aquilo como um sinal”, lembra.
Depois de colocar na cabeça que aquele trabalho o ajudaria a melhorar de vida, Ramos juntou o restante do dinheiro que tinha em casa para comprar pacotes de balas, chicletes e chocolates. Ele levou várias semanas até encontrar um ponto de comércio e conquistar uma pequena clientela. Mas foi apenas quando optou por mudar o visual, adotando o terno e a gravata, que conseguiu obter o lucro.

“Eu oferecia os doces e as pessoas diziam que aquilo não era trabalho de verdade, que eu deveria procurar um serviço. Pensei em uma maneira de mostrar que aquele era um trabalho decente. Tinha uma calça social e um blazer em casa e comecei a usar. Fiquei conhecido como o vendedor engravatado”, diverte-se.

Ramos encara o “estilo” com seriedade, tanto que mantém o terno mesmo nos dias mais quentes. Essa obstinação chama a atenção de quem passa pelo local. São os próprios clientes quem presenteiam o vendedor com os mais variados tipos de presentes, como roupas, utensílios domésticos e até alimentos. “Atualmente, tenho entre cinco e seis ternos. Só comprei um, o restante eu ganhei todos do pessoal que passa por aqui”, destaca.

Triciclo e viagem
Foi um dos clientes do paranaense que presenteou o vendedor com o que ele considera ser seu xodó: um triciclo. O veículo já se tornou uma marca registrada nas vendas. Ele lembra que esse sorocabano passava diariamente pelo local quando lhe ofereceu uma viagem até São Paulo. Na volta, ganhou a surpresa.

“Ele perguntou se eu já havia saído de Sorocaba e se ofereceu a me levar para São Paulo. Lá, andamos bastante e ele me mostrou ambulantes com bicicleta. Na volta para Sorocaba, me presenteou com uma. É um sonho”, afirma.

Com a chegada do triciclo, aumentou também as vendas. Atualmente, Ramos consegue obter entre R$ 600 e R$ 700 mensalmente com as vendas. O gasto com os chicletes, pé de moleque, bala de coco, entre outras guloseimas, não passam de R$ 100.

Em meio a história que o fez chegar até a venda ambulante, Ramos diz não se arrepender das escolhas que fez até aqui e afirma ter, atualmente, uma maneira mais doce de levar a vida. “Vendo meus produtos e ganho carinho dos motoristas. As buzinas na avenida me enchem de alegria”, diz ele enquanto os veículos param no semáforo a procura dos produtos – e da simpatia – do vendedor.

As vendas são feitas diariamente, entre as 14h e as 20h em praça da Zona Norte (Foto: Amanda Campos/G1)
As vendas são feitas diariamente, entre as 14h e as 20h em praça da Zona Norte (Foto: Amanda Campos/G1)

Fonte: G1 

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